Apenas Pétalas Anna Paes A meteorologia prometia sol e calor, mas o tempo imprevisível nos trouxe chuva e muito frio. Tomamos o ônibus, que nos levaria às praiagens sofisticadas e belas da Costa do Chile. Isla Negra! Vislumbrava segredos que fluíam no cheiro da maresia e agregavam-se ao (in) condizente, o murmúrio dos amantes, hoje, decerto, amando em outras dimensões. Pablo, Matilde, encontros...amores... vidas... poesia...momentos... e duas tumbas reais deitadas ao sol e ao luar da Ilha. Largas rochas. Mar tremendo. Ondas voluptuosas. Chovia forte! O aguaceiro me intimidava naquele dia, e eu cismava que se descesse corpo abaixo, me derreteria como açúcar. Permiti-me alguns respingos. Pouca coisa me apetecia! Os outros, alegres, festivos, cantantes, molhados corriam pela chuva, fotografavam, riam. Notei um homem cabisbaixo, só, com seus pensamentos. Eu não saberia dizer se sonhava ou se vivia o presente. Uma forte energia apossou-se de mim. Estremeci. Chuva, chuva. Neblina, vagas cores. Rosas molhadas, quase despetaladas! Tão pesadas. E o olhar daquele homem segredando sentimentos, desejos. Guardava segredos, mas não queria guardá-los. Lia-se em seus olhos! Havia medo, insegurança, uma nostalgia. Saudade? Do quê? Por quê? Saímos dali, rumo ao ônibus e algo me perseguia, um sentimento, uma dor, uma emoção. Tão forte! Uma troca de energia! Era isso. Percebi então, uma mulher e um homem quase apaixonados. Amantes antigos? Quem poderia dizer se não nos conhecíamos bem, uns aos outros? Ele de posse de um sentimento único, guardado por séculos talvez. Quem sabe dizer quantas vidas já vivemos... Ela, tristonha, parecia vagar no espaço em que se encontrava, absorta. Vazios imensos, busca. Eu captava toda a energia que os envolvia. E parecia viver tudo. Cada movimento, cada olhar, toda palavra ecoava. Já, não sabia se chovia ou se o céu chorava de emoção. Em um preciso instante, o ônibus parou, e a chuva me incomodava, mais uma vez. Ele se precipitou ao descer e correu até a mulher que gritava: Paráguas, paráguas! Ou seja, sombrinhas, sombrinhas ! A ambulante as vendia, e em boa hora! Como chovia meu Deus! Vi-o com a "parágua" na mão, uma sombrinha rosa, que foi ofertada com um gesto de ternura à mulher encantada, que ainda absorta , vagava.... Pareceu acordar naquele instante. Recebeu carinhosamente, a sombrinha ofertada, que já aberta, protegia seu corpo da chuva. Era uma bela mulher. Tinha olhos grandes, belos, brilhantes que sorriram também, ao receber o delicado presente. E foi correspondida! Sombrinha cor de rosa Anna Paes A chuva caía mansa, Suave, como lágrimas, Descendo pelas faces. Os pingos, numa dança, Molhavam-me os cabelos. Tu, preocupado com meu conforto, Fez um ato de extrema gentileza, Deu-me um presente, Uma beleza. Uma sombrinha cor-de-rosa Uma parágua na tua língua, No teu verso e na tua prosa. Não foi um simples presente, Foi o gesto, foi o sentimento. Mais que um agrado, mais que um carinho Davas-me, teu coração. Demonstravas-me tua paixão, Provavas-me a tua afeição. Aquele presente, em si, carregava, A fragrância de tuas mãos amorosas, O teu olhar brilhante, iluminado Pelo fogo das paixões repentinas, Que não podem ser explicadas, O sorriso franco e carinhoso Que aqueceu meu coração, Que alegrou minha alma, Transbordou-me de felicidade. Chuva chove Chora a natureza Ri-se meu coração Com sua gentileza, Que renasce em mim a ilusão, Abrem-me as portas da beleza, De um amor com cheiro da pureza, De uma paixão verdadeira. Saímos todos para uma Visitação Pública. Eu os perdi de vista por alguns momentos. Em seguida, fomos almoçar à beira mar, em um restaurante simples, mas com uma comida saborosa e quentinha. O mar ia e vinha em ondas sonoras e bravas. Qual cantiga de amor ou dor, dependendo do ouvinte. Tínhamos musica ao vivo, cantores da terra! Ele estava perto, e eu o vi trocando energia com a mulher e dizia: Você é forte! Muito forte. Naquele momento, abriu seu livro de poemas e leu-lhe um deles. E eu ouvi enlevada. Ela chorou de emoção durante a leitura. Ele emocionado, dizia que nunca ninguém se emocionara assim com um poema seu. Ela se lembrou da noite anterior, quando tinham se visto pela primeira vez, e disse que o poema datava 2005. Um ano depois e a cena acontecia? Como poderia ser isso? O poema retratava a noite em seu todo. Ou quase tudo. Estavam os dois, muito emocionados e foram a beira mar, caminhando na praia molhada, onde as ondas arrebentavam com ferocidade, e seus corações palpitavam aceleradamente. Ele lhe contou das atrocidades das ondas naquele local, mirou seus olhos profundamente, e disse: -Teus olhos brilham como duas estrelas sobre o mar! Havia a ânsia de um beijo na troca carinhosa dos olhares. Mas o pudor e timidez criaram barreiras. Deram as costas ao mar e seguiram rumo à comitiva que já ,embarcara. Foram tantos os momentos de ternura, de paixão. Tantos dias de amor e carinho. Desejos e impedimentos. Remorso, estupidez. Apenas um suave roçar de lábios, um toque no corpo, alguns abraços ternos, sem mais. Mãos entrelaçadas, olhos nos olhos. Palavras que se perdiam na dimensão sombria daquela paixão Flores, frio, chuva. Ficou um um cravo branco, poetizando o adeus. Pétalas Tu dizias que meus olhos Eram duas estrelas A brilhar sobre o mar! Hoje, o céu se apagou. Nenhuma estrela pode brilhar Nenhum de meus olhos Refletem a luz do teu olhar. Tamanha distância se fez! Sobraram pétalas, apenas pétalas! De tanto amor que desfolhou... Anna Paes 25/10/2006 – Brasília – DF - Brasil
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